Migalhas

Eu tenho ouvido uma moça no YouTube e no episódio de hoje ela falava sobre merecimento. Como saber que você se odeia. Então ela citou que uma das maneiras é você aceitar migalhas. Então eu lembrei de uma sessão de terapia que fiz há muitos anos, em que minha psicóloga me alertou de que minhas relações eram baseadas na intermitência e que qualquer migalha eu ficava satisfeita.

Então a youtuber continuou, explicando que a gente não aceita essas migalhas pq sim, porquê gosta, a gente aceita por ser natural pra gente, pois foi assim que a gente aprendeu. Relações instáveis na infância, falta de carinho e amor, ou atenção insuficientes.

Um sino tocou na minha cabeça. Meu pai sempre ausente, trabalhava demais, minha mãe autocentrada, quando davam atenção aquilo era o máximo e eu ficava esperando a próxima oportunidade. Eu ficava igual um cachorro que vai buscar o galho que o dono joga enquanto conversa com um amigo. Aprendi que esperar por atenção é normal. Aprendi que amor só aos finais de semana (ou em espaços maiores de tempo) é ok, o 'amor' vem, afinal. Com isso, pra mim era aceitável namorar à distância, ver meu namorado a cada dois meses, falar ao telefone duas ou três vezes na semana, chat pelo computador de vez em quando. Numa época em que não existia Whatsapp isso era bom demais. Isso é o que eu pensava. Depois que o namoro acabou, vieram os novos rapazes. Eu achava que era certo eu chamar, já que era isso que eu queria, eu conversar, eu  perguntar, eu convidar pra sair. Na verdade, o que eu queria era ser escolhida mas estava escolhendo quem não me escolheu. Seguidamente, falhando no compromisso de me amar primeiro.

Isso, inclusive me fez lembrar agora do meu aniversário, em como eu odeio comemorar meu aniversário com a família, em como eu não gosto que cantem parabéns. Isso tudo pra mim é um grande gatilho pois meus aniversários sempre foram com elementos e pessoas que eu não queria. Aniversário da gente é pra ter nossos amigos, né? Pois minha mãe chamava todo mundo e mesmo que eu dissesse "fulano não gosta de mim, eu não gosto dele, ele briga comigo" ela chamava e falava que não era isso, que fulano gostava de mim sim.

Nasci em junho e meu aniversário sempre, sempre, sempre, era de festa junina. Eu ODEIO festa junina, será por isso? Eu queria temas diferentes, eu não queria canjica, mas se fosse pra ter, que fosse a sem amendoim e coco, eu não gostava de coco. Não pode ser a que tem só leite? Podia ter das duas então, né? Pra quê? Faz só a de amendoim com coco. Fui aprender a gostar de coco só depois de adulta, do fresco mesmo. Eu não era ouvida nem validada, pela minha própria mãe, nem mesmo no meu aniversário. Então, seria compreensível que eu tenha aprendido que isso era amor.

Eu não teria chance de me amar primeiro se não tivesse acordado pra essa correspondência. Eu ia continuar procurando e me firmando em pessoas que não estariam dispostas a me entregar tudo, a se dedicarem ao relacionamento. Até pq eu nem saberia que isso é que é o correto, e é o que eu mereço. Como eu aprendi que eu deveria estar sempre à postos pois a qualquer momento a atenção vem, assim eu permaneceria, esperando cair migalhas no chão em volta da mesa de jantar. Do jantar dos outros.

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