Espelho espelho meu
Ela tem mais de 40, solteira. Sem perspectivas de um parceiro. Não se importa com o título de solteira, está mais preocupada com sua carreira, sua saúde, estreitar laços com as amigas e não parar jamais de aprender, qualquer coisa que seja. Seu corpo não é mais o mesmo de 20 anos, ou mesmo de 10 anos atrás. As coisas mudaram rapidamente depois dos 30 e ela jura que foi a fase em que esteve mais bonita. Vira e mexe ela se vê fazendo comparações dela mesma de hoje, com ela de 30 e poucos. Isso é cruel. Pelo menos ela não se compara com outra pessoa. Mesmo assim, isso é cruel. Ela se olhou no espelho enquanto se arrumava para sair. Colocou uma calça justa e, ainda de sutiã, se olhou mais de perto virando os ângulos e disse: Até que eu não tô muito ruim não, para o corpo de uma mulher casada... O sentimento foi direto pros olhos que demonstraram o que se passava dentro. Enquanto ela falava, pensava que, se estivesse casada, aos 40 anos, tudo bem ter aquele corpo. Isso se por acaso já tivesse se casado, pois o companheiro teria visto seu corpo magrinho, definido, sem celulites, acompanhado a evolução do envelhecimento e, se ainda estivesse casada, significaria que ele escolheu ficar com ela mesmo sabendo que esse era o corpo que ela tinha quando estava sem roupas. Ela se envergonhou do pensamento, como se não merecesse ainda ser amada pelo que é, pelo que representa, mas ficou sem saber como corrigir esse pensamento que, de alguma forma, ainda a aprisiona ao "não mereço que me amem como sou".
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